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Encontros internacionais: Cultura e Casa Comum

Publicado em 16/03/2026

CATEGORIAS: Boletim IPPUR

Boletim nº 93, 16 de março de 2026

 

Bruna Alves da Silva

Graduando no curso de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES) e bolsista do PROFAEX

Flavio Matheus da Silva Borges

Graduanda no curso de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES) e integrante do projeto de extensão Encontros Internacionais: O brasileiro entre os outros hispanos

Encerramento da oficina ministrada pelos alunos extensionistas e bolsistas na sala de aula da Nave do Conhecimento de Madureira. Fonte: Acervo pessoal.

Ao longo do mês de julho de 2025, a coordenação do grupo de pesquisa e extensão “Encontros Internacionais: O brasileiro entre os outros hispanos” orientou os discentes do grupo, do curso de Gestão Pública (GPDES), a elaborarem uma proposta para atender ao edital Conexão Universidade lançado pela Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação (SMCT) do município do Rio de Janeiro. O resultado foi a submissão da proposta de oficina intitulada Encontros Internacionais os brasileiros entre outros hispanos: Cultura e a Casa Comum.

A chamada pública da SMCT objetivou a aproximação entre as ações de extensão das universidades, as Naves do Conhecimento e os territórios da cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, seria uma possibilidade para os discentes de Gestão Pública elaborarem e executarem atividades em um equipamento público, configurando-se como uma imersão no espaço da administração municipal.¹

Escolhemos a Nave do Conhecimento de Madureira, pois seria a mais próxima para o acesso dos estudantes envolvidos na organização da atividade. Outrossim, aliamos o tema aos sambas-enredo que selecionamos, das escolas de samba Portela e Império Serrano, localizadas no bairro. Também preparamos uma homenagem ao sambista imperiano Arlindo Cruz.

Nesta perspectiva, nossa proposta ressaltou a inter-relação de temas como questões climáticas que impactam nossa Casa Comum – o planeta Terra – coleta seletiva de lixo, reciclagem, samba-enredo e a cultura local. Nesse sentido, nossa oficina buscou aproximar a população urbana, em especial do bairro de Madureira, das questões socioambientais que envolvem a Amazônia, um dos maiores patrimônios naturais e culturais do planeta. Os países que compartilham a Amazônia são: Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Cada um desses países possui uma parte da Floresta Amazônica em seu território, portanto, têm a responsabilidade de elaborar políticas públicas para a preservação e conservação deste ecossistema único no mundo. A cidade do Rio de Janeiro, mesmo distante geograficamente da Floresta Amazônica, pode contribuir com a disseminação de práticas cotidianas ligadas ao futuro desse bioma, sendo necessário promover um diálogo profícuo, por meio de ações educativas que integrem a expressão cultural e a linguagem popular, tornando-se uma forma de despertar a consciência ambiental e senso de cidadania, sobretudo em tempos em que os debates sobre mudanças climáticas, justiça climática e sustentabilidade ganham destaque na agenda global com eventos como a COP 30.

A conferência climática da ONU realizada em Belém, que reuniu lideranças de todo o mundo para discutir metas de redução de emissões de gases do efeito estufa e preservação dos ecossistemas, estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e ao Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS) e Ação Climática da Cidade do Rio de Janeiro. Portanto, a relevância da proposta estava na possibilidade de promover articulações entre as dinâmicas socioambientais da floresta e o cotidiano das comunidades urbanas, revelando os saberes populares presentes nos enredos de samba, abrindo diálogo com os frequentadores da referida Nave do Conhecimento por meio de um diálogo em que esteja em pauta a educação ambiental na perspectiva republicana e democrática.

Sendo assim, nos dias 11 de outubro e 22 de novembro de 2025, às 10h, realizou-se a oficina de extensão universitária “Encontros Internacionais: O brasileiro entre os outros hispanos: Cultura e a Casa Comum”. A atividade contribuiu para o fortalecimento das relações entre universidade e sociedade, buscando incentivar o desenvolvimento de ações de extensão e a integração de instituições de ensino superior aos territórios das Naves do Conhecimento, espaços voltados à formação, à cultura, à inovação e à mediação tecnológica distribuídos pela cidade. Vinculada ao eixo temático “Produção Cultural”, a atividade teve como propósito articular conteúdos acadêmicos, saberes comunitários e discussões socioambientais, promovendo a reflexão crítica sobre o meio ambiente brasileiro, o diálogo com outros povos hispanos e a importância do compromisso coletivo com o desenvolvimento social e ambiental.

A proposta buscou integrar cultura, território, questões ambientais contemporâneas e o debate sobre a COP 30. As atividades foram sediadas, como já informamos, na Nave do Conhecimento de Madureira, território marcado por forte tradição cultural e conhecido por sua relevância para o universo do samba, especialmente por meio das escolas de samba, Império Serrano e Portela. A escolha deste espaço permitiu que o conteúdo apresentado dialogasse de maneira direta com a história local, fortalecendo os vínculos entre o saber acadêmico e o saber comunitário. Os enredos das escolas de samba Império Serrano e Portela foram utilizados como elementos de cultura popular com relação ao meio ambiente. Ao longo dos dois encontros, o grupo realizou apresentações expositivas e dialogadas, utilizando como recurso central a projeção de slides elaborados coletivamente em processos prévios de estudo, escrita e planejamento.

A abertura das atividades ocorreu com a apresentação “Encontros Internacionais: Cultura e Casa Comum”, que introduziu a discussão sobre o papel da cultura na mediação das relações entre povos e na construção das histórias coletivas. Inspirado tanto na obra Tiempos de Cuidado (2021), de Victoria Campos, quanto às perspectivas contemporâneas da educação ambiental, o debate destacou que a cultura deve ser compreendida como elemento intrinsecamente articulado aos ecossistemas sociais e naturais nos quais as sociedades se desenvolvem. Essa abordagem permitiu evidenciar que preservação ambiental, respeito aos saberes tradicionais e fortalecimento da memória cultural constituem dimensões inseparáveis diante dos desafios globais impostos pelas mudanças climáticas e pela perda da biodiversidade.

A ambientação cultural da Nave de Madureira reforçou o sentido das discussões, sobretudo no momento da homenagem dedicada ao sambista Arlindo Cruz, figura central do samba carioca contemporâneo. A apresentação reconheceu sua trajetória artística, sua forte ligação com o território e sua contribuição para os enredos das escolas de samba locais, os quais frequentemente abordam temas históricos e ambientais. Essa homenagem permitiu estabelecer uma ponte entre cultura popular e consciência ambiental, ressaltando o papel do samba como instrumento educativo, crítico e formador de sensibilidades para questões socioambientais.

Descrição da imagem

Foto do grupo de extensão após a apresentação na fachada da Nave do Conhecimento de Madureira. Fonte: Acervo pessoal.

A seguir, foi introduzido um dos temas centrais da proposta: a COP 30, conferência global sediada no Brasil, no estado do Pará, em 2025. Explicou-se que a conferência,que pela primeira vez teve uma significativa participação dos povos originários do continente sul-americano, constitui o principal espaço internacional de deliberação sobre o combate aos impactos do aquecimento do planeta, reunindo representantes de diversas nações, pesquisadores, organizações da sociedade civil e lideranças globais. Destacou-se que a realização da COP na Amazônia não se limita a um simbolismo geográfico, mas expressa a urgência de discutir o papel estratégico da região, reconhecida por sua biodiversidade, riqueza hídrica e importância para a regulação climática planetária. A Floresta Amazônia foi apresentada como o “El Dorado” contemporâneo — não como mito de riquezas minerais, mas como território essencial para garantir o equilíbrio ambiental e a continuidade da vida em escala global.

A apresentação sobre a COP 30 buscou também sensibilizar os participantes quanto à necessidade de ação imediata, explicando as metas internacionais de redução de emissões, os debates sobre justiça climática e o papel dos países em desenvolvimento na construção de políticas ambientais sustentáveis. Foi ressaltado que, por abrigar grande parte da maior floresta tropical do planeta, o Brasil desempenha função decisiva nas negociações internacionais e nas estratégias de mitigação das mudanças climáticas.

Nesse contexto, em nossa oficina destacamos o mascote oficial da COP 30: o Curupira. A escolha da figura mítica foi explicada como uma valorização dos saberes amazônicos, da cultura popular brasileira e do simbolismo do Curupira enquanto guardião das florestas. A presença desse personagem reforçou a ideia de que as discussões ambientais não podem se restringir ao campo científico, mas devem dialogar com tradições, imaginários e formas culturais que historicamente expressam respeito e cuidado com a natureza.

Ao final das apresentações de nossa oficina, realizou-se um debate por meio de um mural coletivo, no qual foram dispostas perguntas elaboradas pelos estudantes sobre temas como Amazônia, mudanças climáticas, sustentabilidade urbana, saneamento básico, samba-enredo e perspectivas da COP 30. O mural funcionou como dispositivo metodológico de participação democrática e republicana, incentivando que cada visitante contribuísse com reflexões próprias e construísse coletivamente novos entendimentos sobre as questões apresentadas. A dinâmica, marcada pelo diálogo e a revelação das experiências dos participantes, possibilitou trocas horizontais entre estudantes, moradores do território, visitantes e integrantes da Nave do Conhecimento.

Infraestrutura e o mural coletivo criado pelo integrantes do grupo de extensão. Fonte: Acervo pessoal.

Os resultados observados evidenciaram que os objetivos da oficina foram plenamente atingidos. Houve forte engajamento do público com os conteúdos, participação ativa no mural, debates qualificados e indicações claras de que os participantes compreenderam e passaram a refletir criticamente sobre os temas abordados. A programação, composta por apresentações, vídeos de samba-enredo, materiais audiovisuais e registros fotográficos, constituiu uma experiência formativa plural e acessível, reforçando a vocação interdisciplinar do projeto.

Considerando os princípios gerais do projeto Conexão Universidade, a atividade de extensão destacou-se por sua relevância social e educativa. Ao promover uma imersão em temas de grande interesse público, a ação ampliou a capacidade crítica e argumentativa dos envolvidos, fortalecendo tanto sua formação cidadã quanto seu desenvolvimento acadêmico e profissional. O impacto positivo estendeu-se à universidade, aos estudantes envolvidos, aos moradores do entorno e a toda a comunidade que circulou pela Nave do Conhecimento durante o evento, reafirmando o papel da extensão universitária como ponte entre saberes e realidades diversas.

As tarefas foram realizadas de forma colaborativa, preservando a qualidade das atividades. Essa experiência reafirmou a importância da capacidade de adaptação, competência essencial para quem se dedica às áreas de Gestão Pública, planejamento e organização comunitária.

Ao longo dos dois dias de realização, tornou-se evidente que iniciativas como esta reafirmam a função social da universidade pública ao democratizar o conhecimento, aproximá-lo de territórios populares e fortalecer vínculos entre pesquisa, cultura, educação e sociedade. O evento ultrapassou a dimensão informativa: constituiu um espaço de encontro, diálogo e partilha de saberes, além de promover reflexão crítica sobre o futuro coletivo e sobre os desafios ambientais contemporâneos. Conclui-se que o projeto de extensão “Encontros Internacionais: O brasileiro entre os outros hispanos” configurou uma experiência formativa significativa, marcada pela articulação entre cultura, território, sustentabilidade e debate global, demonstrando a potência transformadora da educação pública na construção de sociedades mais conscientes, participativas e ambientalmente responsáveis.

 

Notas

1 Além dos autores deste texto participaram da elaboração e execução das atividades os seguintes discentes do GPDES: Alandha de Lima Wergles; Deborah Regina Gazone Areas; João Victor Telles da Silva; Jullia Rodrigues Rocha Martins; Leticia Corrêa de Lima; Vitória de Barros Macedo Ramos sob a orientação dos professores Renata Bastos da Silva (UFRJ/IPPUR) e Ricardo Marinho (Teia de Saberes).

 

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Victoria. Tiempo de cuidados: Otra forma de estar en el mundo. Barcelona: Arpa, 2021.

PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO. Conexão Universidade: chamada pública para projetos de extensão nas Naves. Prefeitura do Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://cienciaetecnologia.prefeitura.rio/wp-content/uploads/sites/40/2025/06/Conexao-Unive rsidade-Chamada-Publica-para-projetos-de-extensao-nas-Naves-1.pdf. Acesso em: 28 nov. 2025.

NAVES DO CONHECIMENTO. Nave do Conhecimento. Disponível em: https://www.navedoconhecimento.rio/. Acesso em: 28 nov. 2025.

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