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Por que é importante falar de política sem recorrer à lógica de jogo de futebol?

Publicado em 15/05/2026

CATEGORIAS: Boletim IPPUR

Boletim nº 95, 15 de maio de 2026

Elisa Nacur
Doutora em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ)

 

Desde a penúltima eleição presidencial, em 2018, alinhamentos políticos distintos causaram um aumento expressivo de rupturas nos círculos de convivência familiares, laborais e vicinais. Esses novos rearranjos são atribuídos à intensa polarização do debate público nas redes sociais, que transformaram a vida política em disputa por visibilidade, o que reduz o debate à pauta identitária.

Nas palavras de Lilian Schwarcz (2024), a imagem segue triunfante. E tem sido debaixo de sua sombra que os eleitores têm se transmutado em seguidores, da mesma forma que a política do século passado empreendeu em transformar cidadãos em consumidores. O rebaixamento da vida pública em função da esfera privada e familiarista é efeito direto dessa relação de passividade política.

Em terra de likes, os expoentes políticos funcionam como avatares daquilo que no âmago de nosso ser, nós gostaríamos de fazer, embora não tenhamos coragem para tal. Terceirizando a ação política a alguém, já não há mais porquê se responsabilizar (Ortega, 2021). Todavia, aquele que pode falar por nós, pode também ser um robô, um perfil falso ou um agente da destruição dos laços sociais. É cada vez mais frequente o número de perfis falsos, da mesma forma que falsas alegações são permanentemente usadas para a criação de um estado generalizado de alienação social e de pânico moral.

Nesse mesmo sentido, Robert Pechman (2014), diria que a tirania da vida privada acontece quando o espaço de debate público deixa de existir e a alteridade se torna um perigo o qual o sujeito tenta, de forma cambaleante, se defender. Não seria demais concluir que o empobrecimento dos assuntos de afetação geral em nome de uma tentativa, cada vez maior, de desmoralizar o seu oponente no debate de ideias políticas, significa o esmagamento do público em nome da vitória individual. Exatamente como acontece nas partidas de futebol.

Por outro lado, se a diversidade constitui um traço estruturante da formação social brasileira, com a qual aprendemos a fazer a antropofagia diária: como que, nos últimos anos, a cultura brasileira se transformou nessa dinâmica de intolerância às diferenças? Longe de se fazer uma ode ao mito da democracia racial, já que no Brasil, sempre prevaleceu os poderes aristocráticos das pequenas elites brancas, não há como negar a nossa vocação nacional à festa, ao sincretismo religioso e à abertura para o “outro”. Características que nunca deixaram dúvidas de nossa vocação dionisíaca à paz.

Em sentido contrário, no entanto, as plataformas digitais têm exercido papel determinante na reformulação dessa nossa sociabilidade. Elas operam por mecanismos de segmentação que aproximam os semelhantes e afastam os diferentes, convertendo a política em lógica de torcida. O debate público passa a funcionar como espetáculo competitivo: dois lados simplesmente antagônicos se opõem com frases de efeito e em cortes de vídeos virais de apenas 1 minuto. Esses aparatos técnicos corroboram para uma estética do espetáculo político em que importa muito menos a ideia e muito mais o logro discursivo de seu agente.

Tais evidências levam a crer que a circulação desses conteúdos midiáticos são, antes de tudo, fomentadas por um circuito de afetos relacionados ao medo, à raiva alienação e à intransigência pela diversidade. Se lida pela ótica de Walter Benjamin (2013), à luz de sua crítica à estetização da política, podemos concluir que as redes sociais tendem a privilegiar o impacto sensorial, a velocidade e o efeito emocional em detrimento da elaboração racional e programática, convertendo a disputa política em espetáculo.

Nesse quadro, a política deixa de se constituir como espaço de deliberação coletiva sobre a organização da vida social e passa a operar como forma de entretenimento, orientada mais pela lógica da visibilidade e da performance do que pela construção de projetos capazes de intervir materialmente nas condições de existência.

Assim, se essa lógica não for superada através da aproximação do público com o território em encontros presenteístas baseados na sensibilidade e na percepção real das questões sociais, o regime de simulação tenderá a permanecer operante. O que é extremamente perigoso, se tomarmos o aquecimento global como prazo para tomada de consciência geral. Lida pela metáfora platônica das cavernas, a situação revela sua forma opaca de pensamento. Os usuários das redes sociais se comportam como no mundo das aparências, já que os perfis editáveis simulam a uma realidade intangível, mas que pode ser manipulada por imagens, postadas em cenários atrativos que produzem uma sensação de normalidade, enquanto se aprofunda uma destruição real e interligada entre sociedade, meio ambiente e condições subjetivas de existência.

Coloca-se, então, uma questão urgente: de que serve a concentração de riqueza e de visibilidade em poucos agentes políticos e econômicos se o planeta se aquece de forma descontrolada, aproximando-se de limites de não retorno e de cenários de destruição em massa? Como o mundo das imagens tem, realmente, contribuído para a formação da nossa consciência crítica?

A resposta parece estar em torno de nossa sensibilidade real. A formulação de um projeto de desenvolvimento nacional depende de um envolvimento sensível das massas com o território. A existência social não se reduz ao raciocínio abstrato: ela se dá por meio de corpos situados, afetados pelo calor extremo, pelas enchentes, pelas secas, poluição e precariedade urbana. Essas experiências são a expressão concreta da política. Diante dessa concretude, o sentido esvaziado dos discursos perde engrenagem. Por isso, a política deve ser fomentada a partir de nossas experiências tangíveis. Isso demonstra a necessidade de se debater o concreto, relegando a abstração dos discursos o grau de confusão das massas.

Atento a esse mecanismo dissuasivo, é fundamental que durante o processo eleitoral de 2026, eleitoras e eleitores passem a observar o que propõem seus candidatos e candidatas. O voto não deve ser o fim último da política, mas tomada a sua relevância atual, ele deve ser orientado por critérios de justiça social aplicáveis à coletividade, sem moralismos: tanto para a população atual quanto para as gerações futuras. Em 2025, o Brasil atravessou uma importante fase de sua história. A prisão dos envolvidos na trama golpista que implodia em 08 de janeiro de 2022, tem muito a ver com a reapropriação de um mundo real, não orquestrado por imagens falsas que aprisionam os eleitores em discursos vazios cujo objetivo é apenas confundir e perpetuar o poder de uma pequena elite baderneira. Que, desde que o país existe, insiste em governar apenas para os seus.

Ao mesmo tempo, porém, e num gesto de um grito asfixiado de quem padece pelo próprio veneno, a extrema-direita vem insistindo na antiga prática política baseada no pânico moral: discursos de medo são mobilizados para proteger interesses específicos. Enquanto temas ligados a costumes e identidades ocupam o centro do debate midiático, questões estruturais são camufladas e tratadas com superficialidade. Orçamento público, desigualdade, cidades, terra, trabalho e alimentação são assuntos de interesse nacional e devem ser tratados como compromissos públicos.

O Brasil precisa de um Projeto de Desenvolvimento Nacional consistente e duradouro. Por isso, o voto deve ser guiado pelo interesse público, sendo válido se perguntar:

Apesar de simples, essas questões devem estar na base das nossas escolhas. Sendo central questionar:

  1. É justo morar em territórios sem acesso a teatro, cinema, bibliotecas, parques, escolas e hospitais?
  2. É justo passar mais de duas horas diárias no deslocamento para o trabalho?
  3. É justo sofrer discriminação?
  4. É justo estar sujeito à violência?
  5. É justo trabalhar muito e receber pouco?
  6. É justo que alimentos saudáveis sejam mais caros que produtos sem valor nutricional?

A resposta para essas perguntas tende a ser negativa, pois revelam quão injusta nossa sociedade consegue ser. Superar essas injustiças requer um projeto de desenvolvimento nacional com parâmetros claros: princípios públicos, metas definidas, prazos e investimentos contínuos, independentemente do governo em exercício ou de interesses privados dominantes.

O atual cenário de ocultamento da realidade integra um projeto político-econômico associado às grandes plataformas digitais e ao capital financeiro global. Por meio da circulação de violência, do ódio e da desinformação, captura-se a atenção social, transformando tudo em conteúdo instantâneo. A visualização de vídeos de candidatos em redes sociais altera a rede de transportes do território? Permite acesso à moradia digna? Melhora alimentação, saúde, a infraestrutura escolar ou a arborização bairro?

A resposta é negativa. O espetáculo midiático não tem o poder de construir moradias, não organiza sistemas alimentares sustentáveis, não fomenta o ensino e a pesquisa, não cria transportes, não protege territórios e nem assegura a participação ativa das pessoas. A espetacularização da política serve apenas para a captura de atenção, enquanto o problema da exploração se agudiza e sai do vocabulário coletivo.

Além do mais, conflitos internacionais recentes — como o do sequestro do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — ilustram como o uso do espetáculo político através da imagem e do discurso moral podem impactar a vida de bilhares de pessoas. O mundo se inclina cada vez mais para uma guerra enquanto as pessoas e ecossistema passam à margem desse epicentro geopolítico, que insiste em governar para si mesmo. A imagem do Presidente Maduro algemado, vedado e, simbolicamente, trajando um casaco da Nike (marca americana) adiciona uma pitada de mal gosto à questão. Afinal, algemar, capturar e mercantilizar seriam as ações políticas mais adequadas para os nossos tempos, ou isso não passa de mais uma esparrela, que só nos afasta o olhar do real: enquanto o mundo é apropriado pelos ricos através da expropriação e da exploração da classe trabalhadora, discute-se, nos debates políticos, sobre o uso de banheiro para pessoas de diferentes denominações de gênero, ou se determinado país tem uma democracia e pode ser invadido, dependo da resposta que tiver.

Essas batalhas não passam de discursos moralizantes vazios por excelência. Cabe à esquerda batalhar para reconquistar o olhar para a verdade. E isso não vai ser feito diante da tela de um celular.

 

Referências

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre, 2024.

KUSTER, Eliana; PECHMAN, Robert. O chamado da cidade: ensaios sobre a urbanidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

ORTEGA, Francisco. Genealogias da amizade. São Paulo: Iluminuras, 2021.

KUSTER, Eliana; PECHMAN, Robert. O chamado da cidade: ensaios sobre a urbanidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Imagens da branquitude: a presença da ausência. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

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