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Visita dos estudantes do GPDES à Comunidade do Contorno, em Petrópolis

Publicado em 17/07/2026

CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques

Boletim nº 97, 17 de julho de 2026

 

Laila Leite Alves
Estudante de Ciências Sociais e Extensionista da Agência IPPUR

No sábado, dia 30 de maio, os alunos do GPDES fizeram uma visita à Escola Municipal Leonardo Boff, escola comunitária e pública da Comunidade do Contorno, localizada às margens da BR-040 em Petrópolis. Parceira do projeto de extensão Agência IPPUR, a escola comemora em 2026 40 anos de sua fundação, e a visita fez parte da programação das celebrações desse aniversário de grande importância para a comunidade.

Dois ônibus saíram da Ilha do Fundão com destino à comunidade, com o total de 42 discentes, acompanhados pelas professoras Claudia Paiva, Mariana Albinati, Luana Araújo e pelo professor Gustavo Costa. O desembarque aconteceu a cerca de 500 metros da comunidade, em razão de interdições causadas por obras na estrada. Essa necessidade de ajustar o local de desembarque acabou possibilitando aos estudantes experimentar um pouco da realidade dos moradores na caminhada do ponto de ônibus mais próximo até a região onde fica localizada a escola, conhecida como Vale da Escola.

Os estudantes foram recebidos pela diretora da escola e moradora da comunidade, Angelica Proença, que contou um pouco da história do Contorno durante a caminhada e sobre a realidade do local onde, em 2017, abriu-se uma cratera de 70m de profundidade devido às obras do projeto da Nova Subida da Serra (NSS), que afetou permanentemente a dinâmica do território.

Ao chegar na Escola Municipal Leonardo Boff, os discentes foram acolhidos pela equipe com um almoço junto de alguns alunos da escola que estavam encerrando seu sábado letivo, e logo após dirigidos ao auditório onde foi possível aprender sobre a história da comunidade relacionada à história da cidade a partir das falas de Angelica e Paulo Proença, moradores e lideranças comunitárias. Além disso, os discentes tiveram um momento de descontração e integração, onde puderam se apresentar para a comunidade e conhecer toda a equipe que preparou a visita previamente.

A visita também contou com a presença da vereadora Julia Casamasso da Câmara Municipal de Petrópolis e representantes de seu gabinete, que acompanham de perto as lutas da comunidade e da escola e destacaram em suas falas a importância da organização e mobilização da comunidade no cenário político da cidade.

No decorrer da visita, a equipe compartilhou a história da escola, fruto de um mutirão comunitário, que aconteceu na década de 1980 com o apoio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A Escola Municipal Leonardo Boff nasceu com o objetivo de oferecer educação pública às crianças da comunidade, mas com uma proposta pedagógica não convencional, na busca constante de um diálogo e participação da própria comunidade, pais, alunos e professores da escola para a formação das atividades pedagógicas, incluindo o compromisso com uma educação em tempo integral para as crianças, iniciativa pioneira no município. Para viabilizar essa atuação, a escola conta com a “Associação de Pais e Professores da Escola Municipal Leonardo Boff”, que tem um papel central não apenas para as atividades escolares, mas para toda a organização comunitária. Isso porque a Associação serve como instrumento para a defesa dos interesses da escola perante diferentes instâncias do Estado, mas também como espaço de encontros, reflexões e ação da comunidade em torno de desafios e objetivos comuns.

Em conexão com a proposta pedagógica, foram apresentadas diversas atividades realizadas na escola, como projetos de Educação Popular, Marcenaria (atualmente desativada), Xadrez, Horta, Música, Capoeira, Artesanato, Ecotrilha, Teatro, Yoga e Brincação. A orientadora pedagógica Claudia Ferreira também relatou sobre os conflitos que a escola enfrenta com a Secretaria de Educação e sobre as diversas ameaças à proposta do trabalho sóciopedagógico da escola por se diferenciar do modelo tradicional das escolas do município. Mas, também destacou a importância da resistência da comunidade e da iniciativa em desenvolver uma educação a partir das demandas locais.

Duas educadoras finalizaram apresentação sobre a escola com seus relatos e testemunhos. A educadora Emily de Souza expôs sobre sua atuação artística com o Slam dos Crias, projeto de oficina de slam com os alunos da escola que busca trazer para as crianças o desenvolvimento de uma poesia construída a partir das relações coletivas e da realidade local. Por sua vez, a educadora Louise-Isis Branco trouxe reflexões sobre o entrelaçamento entre as diferentes lutas por territórios, materiais e simbólicos, incluindo os corpos como territórios políticos.

As atividades seguiram com um circuito pela estrutura da escola, que permitiu aos alunos observar como as dinâmicas escolares acontecem mais de perto, sendo guiados por integrantes da equipe escolar em grupos distintos por diferentes espaços da escola, dialogando sobre os modos como são ocupados e vivenciados nas atividades pedagógicas, lúdicas e formativas.

Para finalizar a visita, os discentes, docentes e a equipe da escola se reuniram em um lanche coletivo que, além de celebrar a história compartilhada, também foi uma celebração dos 91 anos de vida do Sr. Haroldo Wayand, morador da comunidade de grande importância para a trajetória de luta do Contorno. Ao agradecer os parabéns recebidos, Sr. Haroldo Wayand se mostrou muito orgulhoso da trajetória que trilhou na comunidade e lisonjeado com a presença de tantos alunos, declaração que destaca a importância da visita para a visibilidade da história da comunidade.

A visita impactou profundamente os discentes, tanto pelo contato com uma experiência viva e transformadora de educação, como pelas reflexões para o campo da gestão pública. É possível observar na comunidade uma tentativa de inversão da “lógica natural” da estrutura política em que os cidadãos apenas recebem as decisões do poder público no formato das políticas públicas. Durante a visita, os alunos puderam analisar uma perspectiva de organização de base popular e comunitária com uma metodologia de gestão democrática para a construção e consolidação de políticas públicas por meio da construção e funcionamento da Escola Municipal Leonardo Boff, além da importância da mobilização comunitária para a visibilidade das demandas e necessidades locais. A experiência da Comunidade do Contorno permite entender a necessidade de uma ampliação da dimensão democrática da gestão pública, bem como a valorização da memória de luta e resistência que a comunidade construiu ao longo de sua trajetória. Mais do que uma atividade acadêmica, o encontro reforçou a importância do diálogo entre universidade e território na valorização das experiências e saberes construídos coletivamente. Além da Comunidade do Contorno, representada pela equipe escolar, pais e moradores sentirem-se mais fortalecidos das experiências da organização comunitária proporcionada pela partilha das histórias e narrativas nascidas na década de 80 com o apoio e participação dos estudantes e professores do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ – IPPUR.

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