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Publicado em 15/06/2026
A mercantilização do conhecimento na academia contemporânea
Publicado em 15/06/2026
CATEGORIAS: Boletim IPPUR, Destaques
Boletim nº 96, 15 de junho de 2026
Hilder Alberca Velasco
Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ
O ponto a tratar pode gerar uma inquietação incômoda à razão humana, tendo em vista relacionar-se com o tratamento que vem sendo dado à produção de conhecimento científico nas últimas décadas, sobretudo com a chegada das novas tecnologias como a Inteligência Artificial. O que se pretende afirmar é que já haveria uma saturação da produção científica ou um fetichismo de produzir e construir textos acadêmicos com o único objetivo de permanecer dentro dos padrões acadêmicos dominantes, ou, se assim se quiser dizer, para satisfazer certos vícios da academia contemporânea.
Nesse sentido, haveria um mal-estar silencioso que atravessa universidades, programas de pós-graduação e corredores de pesquisa, mas raramente é discutido com honestidade e sobre o qual pouco ou nada se diz. Fala-se de excelência, produtividade e impacto internacional, mas quase nunca se fala do cansaço estrutural que sustenta essa engrenagem. A ideia diante da qual se estaria é a de um possível colapso da pesquisa científica, a qual pode soar exagerada em um primeiro momento. Contudo o que se percebe não é exatamente um desmoronamento do conhecimento, mas uma profunda distorção de seu sentido.
A ciência continua produzindo resultados extraordinários, porém o modo como é medida, avaliada e recompensada parece cada vez mais desconectado daquilo que deveria ser sua razão de existir.
O problema não estaria na exigência de rigor nem na busca por qualidade; ele parece surgir quando a produção científica começa a ser tratada como mercadoria, quando os artigos deixam de ser expressão de reflexão e passam a funcionar como moedas de troca em um mercado competitivo. Publicar deixa de ser consequência natural de um processo investigativo maduro e converte-se em requisito burocrático para a sobrevivência institucional.
Desse modo, instaura-se uma cultura na qual a pergunta central já não é o que vale a pena investigar, mas onde vale a pena publicar. Essa inversão aparentemente sutil altera toda a lógica da formação acadêmica. Ela deixa de ser, em sua essência, emissão responsável de saber, mais humana e empática para as grandes maiorias, estudantes ou pesquisadores de contextos chamados periféricos, que não dispõem das mesmas possibilidades que as elites educacionais. Convém esclarecer que não se aprecia o uso da palavra “periferia”, pois ela foi historicamente utilizada para designar uma suposta condição de inferioridade atribuída a povos latino-americanos ou a outras culturas consideradas menores. Ainda assim, o conceito é empregado aqui apenas como instrumento de reflexão crítica, para evidenciar as assimetrias estruturais existentes.
Nesse contexto, estudantes de mestrado e doutorado ingressam na universidade movidos pelo desejo de aprender, investigar e contribuir, porém rapidamente descobrem que também devem administrar métricas, prazos, fatores de impacto e exigências quantitativas. A formação passa a ser atravessada por uma ansiedade constante, por uma sensação permanente de insuficiência. O estudante deixa de ser aprendiz e converte-se em gestor de sua própria produtividade. A curiosidade intelectual, que deveria ser o motor da pesquisa, começa a competir com o medo de não cumprir requisitos formais.
A mercantilização do conhecimento intensifica esse cenário. Publicar em revistas internacionais muitas vezes implica custos elevados, taxas que nem todos podem pagar, além de barreiras linguísticas e culturais. O inglês acadêmico e, em menor medida, o francês ou outras línguas dominantes, convertem-se em filtro de legitimidade; quem não domina plenamente esse código entra em desvantagem estrutural. Pesquisadores de contextos assim denominados periféricos enfrentam dupla pressão: produzir com qualidade e traduzir-se constantemente para serem reconhecidos. O acesso desigual a redes internacionais de colaboração reforça hierarquias já existentes e amplia a distância entre centros consolidados e universidades emergentes.
A lógica do publicar ou perecer transforma a trajetória acadêmica em uma corrida interminável. Cada artigo, ensaio, resenha, livro ou capítulo publicado perde rapidamente seu valor simbólico diante da meta seguinte. A sensação de conquista, especialmente para muitos autores de contextos latino-americanos, pode ser breve, substituída pela urgência do próximo envio e da próxima avaliação. O tempo necessário para amadurecer ideias, errar e revisar hipóteses, dialogar com diferentes perspectivas, vai sendo comprimido; aquilo que poderia ser um processo reflexivo converte-se em produção em série.
Não se trata apenas de pressão individual, mas de um sistema completo orientado por indicadores quantitativos. Avaliações institucionais, rankings internacionais e financiamentos baseados em métricas reforçam a centralidade dos números. A qualidade passa a ser inferida a partir da contagem de publicações e citações, como se o valor do pensamento pudesse ser traduzido exclusivamente em gráficos e relatórios. Essa simplificação ignora a complexidade da pesquisa e a reduz a desempenho estatístico.
O impacto dessa lógica sobre o estudante médio é profundo. Nem todos possuem as mesmas condições materiais, emocionais e intelectuais para competir nesse ambiente. Muitos conciliam estudo e trabalho, enfrentam dificuldades econômicas ou provêm de formações anteriores desiguais. Exigir padrões homogêneos de produtividade sem considerar tais diferenças significa naturalizar exclusões. O estudante proveniente de contextos historicamente marginalizados, que poderia oferecer perspectivas originais e experiências valiosas, corre o risco de ser silenciado não por falta de capacidade, mas por não conseguir acompanhar o ritmo imposto.
Existe também uma dimensão psicológica frequentemente invisibilizada. A internalização da lógica produtivista gera culpa constante. Descansar parece perda de tempo; ler sem finalidade imediata parece luxo; aprofundar-se em temas teóricos de longo prazo parece risco estratégico. O prazer intelectual cede espaço à ansiedade pelo desempenho. Não é incomum observar quadros de esgotamento, desmotivação e abandono. A universidade, que deveria ser espaço de formação crítica, converte-se em ambiente de sobrevivência competitiva.
Ao mesmo tempo, aumenta o número de publicações de escassa relevância, fragmentadas unicamente para elevar a contagem. Pesquisas são divididas em múltiplos artigos mínimos, resultados preliminares são acelerados, temas em voga são escolhidos por sua maior probabilidade de aceitação. A criatividade intelectual passa a ser condicionada por tendências editoriais. Em vez de ampliar os horizontes do conhecimento, corre-se o risco de reproduzir padrões previsíveis que garantam inserção rápida no circuito internacional.
É importante reconhecer que esse sistema não surgiu do nada. Ele responde a tentativas legítimas de assegurar transparência, meritocracia e distribuição racional de recursos. Avaliar pesquisadores é tarefa complexa, e as métricas oferecem aparência de objetividade. Contudo, quando os indicadores se transformam em finalidade, e não em instrumento, perdem sua função original. O que era mecanismo de apoio converte-se em critério absoluto de valor.
Questionar esse modelo não significa defender mediocridade nem ausência de critérios; significa perguntar se se está avaliando aquilo que realmente importa. Impacto social, contribuição a políticas públicas, fortalecimento de comunidades locais, formação de novos pesquisadores e inovação pedagógica raramente aparecem nas planilhas com o mesmo peso que artigos indexados. A ciência passa a dialogar mais com bases de dados do que com a sociedade que a financia.
Talvez não se esteja diante de um colapso total, mas vive-se uma tensão crescente. A credibilidade científica depende da confiança pública; quando a produção parece orientada por interesses mercantis, essa confiança pode ser afetada. A crise de reprodutibilidade em diversas áreas, o crescimento de revistas predatórias e a inflação de artigos pouco lidos indicam que algo precisa ser repensado. Quantidade não garante solidez.
A questão central, portanto, não é se se deve reduzir a exigência, mas que tipo de exigência se deseja sustentar. Uma academia verdadeiramente comprometida com o conhecimento precisa equilibrar rigor e humanidade. Deve-se reconhecer que a formação intelectual não se mede apenas por publicações, mas também por capacidade crítica, ética e compromisso social. Exigir excelência não pode significar ignorar contextos e trajetórias diversas.
Reformas estruturais poderiam incluir avaliações mais qualitativas, reconhecimento de produções em línguas locais, valorização de projetos colaborativos e interdisciplinares, incentivo a pesquisas de longo prazo. Seria igualmente fundamental discutir a democratização do acesso às publicações, fortalecendo modelos de acesso aberto que não penalizem economicamente autores de regiões menos favorecidas. A ciência, como bem público, não deveria estar presa a barreiras econômicas rígidas.
Em definitivo, refletir sobre a mercantilização da pesquisa é também refletir sobre o sentido da universidade. Ela existe para formar currículos competitivos ou para cultivar pensamento crítico e transformar realidades? Se a resposta for a segunda, torna-se urgente revisar práticas que sufocam precisamente aqueles que poderiam oferecer novas perspectivas. A crítica não é destruição; é convite à reconstrução.
Talvez o maior risco não seja um colapso imediato, mas a normalização progressiva de um modelo que privilegia desempenho acima da profundidade. Quando gerações inteiras se formam sob pressão constante, internalizando a ideia de que seu valor depende de métricas externas, algo essencial se perde. Perde-se o tempo da dúvida, da experimentação e até do fracasso produtivo, que tantas vezes antecede descobertas significativas.
É possível imaginar uma academia que combine responsabilidade e sensibilidade. Uma academia que mantenha padrões elevados, mas reconheça que o conhecimento é processo coletivo e desigual. Isso exige coragem institucional para enfrentar interesses consolidados e revisar contratos simbólicos e econômicos que sustentam o mercado editorial. Exige também mobilização de pesquisadores, estudantes e gestores dispostos a questionar o estado atual das coisas.
A crítica ao excesso de publicações e à pressão por métricas não é nostalgia de um passado idealizado; é expressão de preocupação legítima com o futuro da ciência. Se o objetivo é produzir conhecimento significativo, é necessário garantir condições para que ele floresça de maneira ética e inclusiva. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a universidade em fábrica de artigos e deixar para trás aquilo que a torna indispensável: a capacidade de pensar o mundo com profundidade, responsabilidade e liberdade.
Notas
- A expressão “publicar ou perecer” refere-se à pressão institucional para produção contínua de artigos como condição de permanência na carreira acadêmica.
- O conceito de mercantilização do conhecimento relaciona-se à transformação de bens simbólicos em ativos submetidos à lógica de mercado.
- A crise de reprodutibilidade diz respeito à dificuldade de replicar resultados científicos em determinadas áreas, levantando debates sobre práticas metodológicas e incentivos institucionais.



